22/11/2014

calma

Conversa de passarinho, vaivém de rede, silêncio de livro: músicas de sábado.

18/11/2014

agitação

Árvore crespa, cabelo despenteado, pensamento inquieto: o dia amanheceu espalhando vento.

12/11/2014

porto pra lá de alegre

Estou em Porto Alegre, participando da 60ª Feira do Livro e visitando escolas da cidade. Sempre é muito gostoso, mas foi bem mais do que isso com essa turma animadíssima da Escola Municipal João Goulart. Fui recebida com entusiasmo, e não só: trabalhos sensacionais, orientados por professoras muito bacanas, transformando meus livros em pontos de partida prum monte de discussões interessantes. A professora de matemática, por exemplo, conseguiu fazer contas com o "Buááá!", organizando, em gráficos, quantas vezes cada um chorou por qual motivo -- esse aí embaixo dá conta de registrar choros de alegria:

Em outra classe, o assunto foi o "Mistério do Tempo", inspirando uma série de relógios incríveis! Que tal este marcando tão bem a ideia do nosso tempo virtual?

Criatividade sem limites também nos livrinhos produzidos pelos pequenos, com direito a mudanças no rumo da história e também no título: o "O Patinho Culpado", por exemplo, ficou "Humilhado": 

Delícia. 

08/11/2014

despedida

Miúda Felina é uma gata longeva. Dizem que seus quinze anos equivalem a setenta e tantos dos nossos, mais de oitenta dependendo da raça. Seja quanto for, é muito, mas até a semana passada eu não pensava nisso, ou preferia não pensar. É verdade que já faz tempo que ela deixou de ser ranzinza e temperamental como a Araci, a gata da bruxa Creuza; há muito parou de se meter em encrencas como a Princesa, do “Fala, Bicho!”, e também já não é tão saliente como a Sorte, companheira da protagonista do “As Namoradas do Meu Pai”. Com os anos, ficou mais dócil, silenciosa, quase não mia, dorme muito, mas continua inspirando os personagens felinos das minhas histórias.
Dias atrás, Miúda ficou doente pela primeira vez. Correria, pronto-socorro, exames e um diagnóstico previsível – o problema é sério e crônico como a própria velhice.
Enquanto escrevo, ela tira uma soneca, acomodada sobre o roteador quentinho. De vez em quando abre os olhos e fica piscando pra mim -- o oi mais azul que recebo todos os dias --, como se quisesse dizer: tá tudo bem. Depois muda de ideia, chega perto e, com toda a intimidade dos nossos quinze anos juntas, pula no meu colo. Antes de voltar a dormir, olha pra mim como se soubesse que estou escrevendo sobre ela. Sobre a saudade que já estou sentindo de você, minha Miúda Felina.

(*) mais trabalhos do artista plástico Endre Penovác aqui.

05/11/2014

abelha


Por causa da chuva inesperadamente forte, fechei os vidros do carro e avancei devagar, tentando enxergar através da enxurrada de pingos grossos que o parabrisa não dava conta de dissolver. Achei que estava sozinha, mas não: éramos eu e a abelha. Medo e prudência deram a ordem: não se mexa! Então continuei dirigindo como se não estivesse aflita com a tempestade e a abelha e a vontade de sair correndo dali, trocando a marcha e girando a direção com movimentos mínimos, ao contrário da abelha que começou a voar em giros desesperados pelo interior do carro, zumbindo ameaçadoramente cada vez que batia num dos vidros, atraída pela claridade. Num gesto corajoso, me mexo rapidamente, alcanço a maçaneta da outra porta e abro uma fresta da janela, mas a abelha, estranhamente, não aparece. Presto atenção, mas já não ouço o zumbido, só a chuva espalhando seu barulho e água pelo banco do passageiro. Por um momento, penso que a abelha se foi, respiro aliviada e fecho o vidro. Então vejo: a mancha amarelo-escuro sobre o painel preto, parada, quieta, ao meu alcance: presa fácil de um lenço de papel certeiro. O plano é simples, mas não posso falhar, sob o risco de despertar sua ira. Chego a puxar um lenço da caixinha quando, de repente, ela se move, lentamente, deslizando pelo painel até parar de novo, agora quase na minha frente. Por um momento, eu e a abelha: frágeis, presas na mesma armadilha, com medo uma da outra. Amassei o lenço de papel e abri completamente o vidro da minha porta: a abelha ainda hesitou um instante, intimidada pelo vento forte, mas num ímpeto alçou voo, confiante, e despareceu no meio da chuva, agora mais fraca, pingando só uma lembrança de  tempestade.

04/11/2014

maravilha

a chuva acordou o dia
com barulho e ventania

depois virou garoa fina
e choveu poesia

pingos de brilho
no cabelo da menina

30/10/2014

a franja do professor

Blandina Franco, Gilles Eduar, Maria Amália Camargo, Índigo e eu contamos tudo o que "Aconteceu na Escola", livro novo saindo do forno da editora Globo nos próximos dias. As ilustrações são do Rafa Anton, que desenhou o meu professor com a franja do jeitinho que imaginei.

28/10/2014

trecho

(…) Tenho doze anos e sempre dou um jeito de ficar doente ou inventar uma desculpa pra não participar das aulas de educação física. Mas hoje o professor não me dispensou e depois do aquecimento me convoca pra fazer parte de um dos times de vôlei. Não tenho chance de dizer que não quero jogar, minha boca trava, a voz desaparece pra sempre. Então ele me chama, do centro da quadra, apontando a posição que devo ocupar, e chama de novo porque não me mexo, na inútil esperança de que alguém se ofereça e me salve do desastre. Enquanto caminho em direção à quadra percebo um grupinho de meninas cochichando e rindo, na mesma hora tenho certeza: estão falando de mim. Olho para o chão e sigo, devagar, suando dentro do uniforme, desconfortável, desajustada, sempre eu. O jogo começa, a bola passa voando por cima da minha cabeça, uma vez, duas, e de novo, as meninas vão trocando passes como se eu não existisse, e de repente acontece: uma coisa por dentro, forte, quente, uma espécie de raiva que me lança pro alto, é só um impulso mas me deixo levar e subo, por um instante meus olhos ultrapassam o limite da rede, então estico o braço e vejo minha mão lá em cima, alcançando a bola antes das outras mãos. Quase sem querer marco um ponto, todo mundo comemora. Pela primeira vez, aplausos (…).

Aceitei com muita alegria o convite de Luis Brás pra participar de uma antologia recheada de autores bacanas, que deve sair em breve, com o selo da Sesi-SP Editora.

17/10/2014

que legal!

Acabo de saber que a versão do "Como Começa?, editado na Suécia pela Opal Bokforlaget, entrou em uma lista de bibliotecas públicas. Viva!

14/10/2014

prece

chove, chuva,
chove sem parar
chega de greve
chova como bem desejar
com barulho de trovão
com raiva de granizo
ou até quietinha
molhe todas as coisas
com alegria de garoa fininha
chove, chuva
chove sem parar
com música de água
vamos todos dançar

09/10/2014

Aconteceu na Escola

Gilles Eduar, Maria Amália Camargo, Blandina Franco, Índigo e eu nunca estudamos juntos, mas tivemos a sorte de partilhar histórias deliciosas em "Aconteceu na Escola", livro novo saindo logo, logo, com ilustrações do Rafa Anton e edição caprichada da Globo Livros.

06/10/2014

Reviravento

Às vezes, ele chega de mansinho, diz bom dia pela fresta da janela e assobia no mesmo tom dos passarinhos. Mas quando acorda nervoso, espalha a notícia por toda parte, deixando a árvore crespa, o cabelo despenteado e o pensamento inquieto. Vento é assim: muda a cada momento, mexe e remexe com tudo, até com a imaginação da gente. Porque ele sopra histórias no ar pra todo mundo escutar e também faz as palavras voarem quando quer fazer poesia.


Taí a 4ª capa do "Reviravento"que sai logo, logo, pela Record!

01/10/2014

amor-perfeito

florzinha bonita, que coisa inesperada
que ideia foi essa de aparecer assim do nada?

e eu lá tenho ideia? foi puro acaso!
mas é melhor estar aqui do que num vaso


levei um susto, afinal, sou uma calçada
e, aqui, uma flor acaba sendo pisoteada!

ai, ai, ai, pobre de mim!
por que não nasci num jardim?


e pensar que você saiu de uma rachadura...
quanto tempo será que você dura?

mas que horror! precisa ser tão indelicada?
sou frágil demais e já estou machucada!


florzinha cheirosa, não fique magoada
até que estou gostando de ser enfeitada!

então deixe de ser tão ranzinza
agora você já não é só um piso cinza


florzinha tão linda, você é danada!
conseguiu fazer brotar um coração nesta calçada!

26/09/2014

ver o mundo

Eu vi a lua cheia iluminando a noite sobre o Hyde Park, e um gato chamado Mitsi dormindo entre as máscaras de uma lojinha em Veneza. Vi tantas ruas cheias de gente e também vi dezenas de gôndolas vazias, descansando com seus fantasmas sobre as águas quietas de um canal. Trouxe comigo um monte de sensações e um calendário pra ver as ilustrações de Wolf Erlbruch todos os dias. Ver o mundo é tão bom. Voltar é tão bom.

04/09/2014

viajar

pela janela
contemplo
a vida em movimento
e ronrono:
lá fora e aqui dentro
tudo é sonho

a ilustração é do Daniel Kondo, e eu volto no final do mês.

02/09/2014

belas adormecidas

Todas as lembranças encontram um lugarzinho pra dormir dentro da gente. Algumas adormecem na cabeça, muitas se acomodam no coração, mas não só. Tem lembrança que descansa na língua e vive acordando, basta ser chamada pelo sabor de um doce da infância. Lembrança é assim: desperta por causa de um cheiro, uma música, certas palavras, uma paisagem. Nem todas têm um sono tranquilo --  são lembranças meio inquietas, não conseguem sossegar talvez porque tenham a ver com um passado que não passou de verdade. Mas também existem as que mergulham num sono tão profundo que só espreguiçam quando se cutuca muito. Mesmo assim, continuam sonolentas e embaçadas, confundido a gente com os sonhos que elas estão sonhando.

31/08/2014

sol

o inverno amanheceu sorrindo
vestiu azul e se esquentou
com o abraço do domingo
  

26/08/2014

de uma história que está começando (2)

Tenho doze anos e sempre dou um jeito de ficar doente ou inventar uma desculpa pra não participar das aulas de educação física. Mas hoje o professor não me dispensou e depois do aquecimento me convoca pra fazer parte de um dos times de vôlei. Não tenho chance de dizer que não sei jogar, minha boca trava, a voz desaparece pra sempre. Então ele me chama, do centro da quadra, apontando a posição que devo ocupar, e chama de novo porque não me mexo, na inútil esperança de que alguém se ofereça e me salve do desastre. Enquanto caminho em direção à quadra percebo um grupinho de meninas cochichando e rindo, na mesma hora tenho certeza de que estão falando de mim, por isso abaixo a cabeça e sigo, devagar, suando dentro do uniforme, desconfortável, desajustada, sempre eu. O jogo começa, a bola passa voando por cima da minha cabeça, uma vez, duas, e de novo, o time vai trocando passes como se eu não existisse, e de repente algo acontece, uma coisa por dentro, forte, uma espécie de raiva que me lança pro alto, é só um impulso mas me deixo levar e subo: meu corpo ultrapassa o limite da rede, o braço esticado e minha mão lá em cima, alcançando a bola antes das outras mãos com um toque certeiro, delicado, inesperado: marco um ponto para o time, todos comemoram. Pela primeira vez, aplausos.
(...)