21 de dez de 2014

natal

Todo mundo foi embora. Aos poucos, é verdade. Uma turma se mudou num ano; outra, meses depois. E eu fui ficando e ficando e fiquei. Sozinho. Por sorte, sou muito maleável, me adapto bem às circunstâncias. Cá entre nós, não sinto tanta falta assim de ninguém, quer dizer, na maior parte do tempo. Mas quando chega dezembro, confesso, bate uma saudade. O pessoal era animado e na hora de armar a festa, nossa, a gente caprichava no visual. Espalhados pela casa, dávamos um colorido todo especial a cada canto, muito brilho, luzes, era lindo mesmo! A criançada brincando com a gente, bons tempos! Agora todos cresceram, fico espantado vendo como o tempo passou... Mas não vou dar uma de saudosista, até porque hoje em dia também tem festa. A noite sempre é alegre, com música e o maior capricho nos comes e bebes, e mesmo sozinho, eu continuo aqui, a postos, no lugar de sempre, dando as boas vindas pra quem chega. É uma baita responsabilidade, ser o único vestido a caráter, segurando o clima da noite! Mas também é uma delícia continuar existindo pra quem, ano após ano, espera esse dia pra me reencontrar.

18 de dez de 2014

natal

trocar presentes
celebrar encontros
lembrar dos ausentes

rimar alegria com melancolia

desde que me lembro
a saudade mora
em dezembro

13 de dez de 2014

afeto

a língua-lixa lambe
com delicadeza
faz cócegas, arranha
mistura doçura e dureza 

na língua dos gatos
amor rima com aspereza

10 de dez de 2014

A Vida é Logo Aqui

(…) Dani, não esquece! Toma logo o antialérgico se levar uma picada!
Entro no ônibus abraçando minha mochila feito travesseiro, e me encolho num dos últimos bancos, cara grudada na janela, dando tchau pra minha mãe, de pé, ali na calçada, entre mil mães a única com vontade-de-chorar-disfarçada-de-sorriso. Seu rosto me diz que ela está feliz porque estou indo e aflita porque estou indo. Quando o ônibus começa a se mover, a turma grita e festeja a partida enquanto as mães vão ficando pra trás, e então peço -- é quase uma prece -- pra que todos os temores fiquem lá, com ela, plantados na calçada.

Trecho de "Dani Vai Dançar", na coletânea organizada por Nelson de Oliveira, chegando com o ano novo com o selo do Sesi-SP Editora.

8 de dez de 2014

esperar

(*)
o chá, as manhãs, as histórias: todas as coisas têm seu tempo de nascer.  

(*) a ilustração é de Eva Vásquez

3 de dez de 2014

sementes

Hoje lembrei daquela experiência que a gente fazia na escola, em algum momento do antigo curso primário: dentro de um potinho transparente, colocávamos um grão de feijão sobre um punhado de algodão embebido em água. Depois, era só deixar o recipiente num lugar bem iluminado, umedecer o algodão, caso secasse, e esperar. Em poucos dias, o feijão enrugava e logo aparecia a pontinha de um caule que cresceria rápido, feito mágica, rodeado de folhas verdinhas. Aguardo o início do ano com a mesma expectativa da menina que ficava observando os primeiros sinais de mudança dentro daquela nuvem de algodão, ansiosa para ver os brotos de tantas sementes que plantei em 2014.

1 de dez de 2014

o nome das coisas

sol é palavra que brilha
solidão é a palavra ilha

música é palavra que canta
segredo é palavra que não conta

estripulia é palavra que pula
imaginação é palavra que fabula

é como se tivesse olhos
boca, ouvidos e nariz

cada palavra dá um rosto
a tudo que se diz

28 de nov de 2014

simulacro

rosa de pano, maçã de cera, joia de vidro
-- e certos sorrisos --:
tantas coisas iludem o olhar distraído

22 de nov de 2014

calma

Conversa de passarinho, vaivém de rede, silêncio de livro: músicas de sábado.

18 de nov de 2014

agitação

Árvore crespa, cabelo despenteado, pensamento inquieto: o dia amanheceu espalhando vento.

12 de nov de 2014

porto pra lá de alegre

Estou em Porto Alegre, participando da 60ª Feira do Livro e visitando escolas da cidade. Sempre é muito gostoso, mas foi bem mais do que isso com essa turma animadíssima da Escola Municipal João Goulart. Fui recebida com entusiasmo, e não só: trabalhos sensacionais, orientados por professoras muito bacanas, transformando meus livros em pontos de partida prum monte de discussões interessantes. A professora de matemática, por exemplo, conseguiu fazer contas com o "Buááá!", organizando, em gráficos, quantas vezes cada um chorou por qual motivo -- esse aí embaixo dá conta de registrar choros de alegria:

Em outra classe, o assunto foi o "Mistério do Tempo", inspirando uma série de relógios incríveis! Que tal este marcando tão bem a ideia do nosso tempo virtual?

Criatividade sem limites também nos livrinhos produzidos pelos pequenos, com direito a mudanças no rumo da história e também no título: o "O Patinho Culpado", por exemplo, ficou "Humilhado": 

Delícia. 

8 de nov de 2014

despedida

Miúda Felina é uma gata longeva. Dizem que seus quinze anos equivalem a setenta e tantos dos nossos, mais de oitenta dependendo da raça. Seja quanto for, é muito, mas até a semana passada eu não pensava nisso, ou preferia não pensar. É verdade que já faz tempo que ela deixou de ser ranzinza e temperamental como a Araci, a gata da bruxa Creuza; há muito parou de se meter em encrencas como a Princesa, do “Fala, Bicho!”, e também já não é tão saliente como a Sorte, companheira da protagonista do “As Namoradas do Meu Pai”. Com os anos, ficou mais dócil, silenciosa, quase não mia, dorme muito, mas continua inspirando os personagens felinos das minhas histórias.
Dias atrás, Miúda ficou doente pela primeira vez. Correria, pronto-socorro, exames e um diagnóstico previsível – o problema é sério e crônico como a própria velhice.
Enquanto escrevo, ela tira uma soneca, acomodada sobre o roteador quentinho. De vez em quando abre os olhos e fica piscando pra mim -- o oi mais azul que recebo todos os dias --, como se quisesse dizer: tá tudo bem. Depois muda de ideia, chega perto e, com toda a intimidade dos nossos quinze anos juntas, pula no meu colo. Antes de voltar a dormir, olha pra mim como se soubesse que estou escrevendo sobre ela. Sobre a saudade que já estou sentindo de você, minha Miúda Felina.

(*) mais trabalhos do artista plástico Endre Penovác aqui.

5 de nov de 2014

abelha


Por causa da chuva inesperadamente forte, fechei os vidros do carro e avancei devagar, tentando enxergar através da enxurrada de pingos grossos que o parabrisa não dava conta de dissolver. Achei que estava sozinha, mas não: éramos eu e a abelha. Medo e prudência deram a ordem: não se mexa! Então continuei dirigindo como se não estivesse aflita com a tempestade e a abelha e a vontade de sair correndo dali, trocando a marcha e girando a direção com movimentos mínimos, ao contrário da abelha que começou a voar em giros desesperados pelo interior do carro, zumbindo ameaçadoramente cada vez que batia num dos vidros, atraída pela claridade. Num gesto corajoso, me mexo rapidamente, alcanço a maçaneta da outra porta e abro uma fresta da janela, mas a abelha, estranhamente, não aparece. Presto atenção, mas já não ouço o zumbido, só a chuva espalhando seu barulho e água pelo banco do passageiro. Por um momento, penso que a abelha se foi, respiro aliviada e fecho o vidro. Então vejo: a mancha amarelo-escuro sobre o painel preto, parada, quieta, ao meu alcance: presa fácil de um lenço de papel certeiro. O plano é simples, mas não posso falhar, sob o risco de despertar sua ira. Chego a puxar um lenço da caixinha quando, de repente, ela se move, lentamente, deslizando pelo painel até parar de novo, agora quase na minha frente. Por um momento, eu e a abelha: frágeis, presas na mesma armadilha, com medo uma da outra. Amassei o lenço de papel e abri completamente o vidro da minha porta: a abelha ainda hesitou um instante, intimidada pelo vento forte, mas num ímpeto alçou voo, confiante, e despareceu no meio da chuva, agora mais fraca, pingando só uma lembrança de  tempestade.

4 de nov de 2014

maravilha

a chuva acordou o dia
com barulho e ventania

depois virou garoa fina
e choveu poesia

pingos de brilho
no cabelo da menina

30 de out de 2014

a franja do professor

Blandina Franco, Gilles Eduar, Maria Amália Camargo, Índigo e eu contamos tudo o que "Aconteceu na Escola", livro novo saindo do forno da editora Globo nos próximos dias. As ilustrações são do Rafa Anton, que desenhou o meu professor com a franja do jeitinho que imaginei.

28 de out de 2014

trecho

(…) Tenho doze anos e sempre dou um jeito de ficar doente ou inventar uma desculpa pra não participar das aulas de educação física. Mas hoje o professor não me dispensou e depois do aquecimento me convoca pra fazer parte de um dos times de vôlei. Não tenho chance de dizer que não quero jogar, minha boca trava, a voz desaparece pra sempre. Então ele me chama, do centro da quadra, apontando a posição que devo ocupar, e chama de novo porque não me mexo, na inútil esperança de que alguém se ofereça e me salve do desastre. Enquanto caminho em direção à quadra percebo um grupinho de meninas cochichando e rindo, na mesma hora tenho certeza: estão falando de mim. Olho para o chão e sigo, devagar, suando dentro do uniforme, desconfortável, desajustada, sempre eu. O jogo começa, a bola passa voando por cima da minha cabeça, uma vez, duas, e de novo, as meninas vão trocando passes como se eu não existisse, e de repente acontece: uma coisa por dentro, forte, quente, uma espécie de raiva que me lança pro alto, é só um impulso mas me deixo levar e subo, por um instante meus olhos ultrapassam o limite da rede, então estico o braço e vejo minha mão lá em cima, alcançando a bola antes das outras mãos. Quase sem querer marco um ponto, todo mundo comemora. Pela primeira vez, aplausos (…).

Aceitei com muita alegria o convite de Luis Brás pra participar de uma antologia recheada de autores bacanas, que deve sair em breve, com o selo da Sesi-SP Editora.

24 de out de 2014

17 de out de 2014

que legal!

Acabo de saber que a versão do "Como Começa?, editado na Suécia pela Opal Bokforlaget, entrou em uma lista de bibliotecas públicas. Viva!

14 de out de 2014

prece

chove, chuva,
chove sem parar
chega de greve
chova como bem desejar
com barulho de trovão
com raiva de granizo
ou até quietinha
molhe todas as coisas
com alegria de garoa fininha
chove, chuva
chove sem parar
com música de água
vamos todos dançar

9 de out de 2014

Aconteceu na Escola

Gilles Eduar, Maria Amália Camargo, Blandina Franco, Índigo e eu nunca estudamos juntos, mas tivemos a sorte de partilhar histórias deliciosas em "Aconteceu na Escola", livro novo saindo logo, logo, com ilustrações do Rafa Anton e edição caprichada da Globo Livros.