1 de abr de 2015

mentiras sinceras

"Bem sei que é nas memórias que os homens mentem mais (...) Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar ideia de que está falando a verdade pura." 
("Memórias da Emília", de Monteiro Lobato)

28 de mar de 2015

23 de mar de 2015

quer saber um segredo?


o segredo da menina é precioso como uma pérola
e vive escondido dentro de uma concha que é só dela

o segredo do menino é valioso como ouro
e fica trancado num baú como se fosse um tesouro

mas, às vezes, o assunto é complicado
e já não consegue continuar trancafiado

daí começa a aparecer feito assombração
e faz de tudo para tentar sair da sua prisão

de repente, tenta escapar, mas fica sem voz
e para na garganta, engasgado num monte de nós

a menina morde os lábios e o menino se cala
mas não adianta: de outros jeitos, o segredo fala

feito vento invisível que movimenta tudo
o silêncio diz muito, mesmo se fingindo de mudo

e a lágrima vira palavra de letra transparente
que os olhos escrevem de um jeito urgente

quando um segredo teima em se contar
é melhor ter alguém com quem conversar

não se engane: ele vai continuar mandando recado
como um velho ranzinza e bem magoado

a concha abre devagarzinho: o menino presta atenção
a ponta do baú aparece: a menina tropeça na emoção

e então eles descobrem outro tesouro
mais precioso do que mil pérolas e todo o ouro

um lugar seguro, onde todos os segredos cabem
como um grande cofre que não precisa de chave

por lá, os segredos circulam à vontade
protegidos por um laço chamado amizade

17 de mar de 2015

uma noite, um gato



Lá fora tem um mundo tão grande!
Quantas coisas pra descobrir...

Ao mesmo tempo, é bom estar aqui
No meu mundo de silêncio e contemplação

Lá fora tem o escuro da noite, as ruas desconhecidas
Mas... Quantas aventuras podem acontecer?

Será tão bom quanto me espreguiçar à vontade
E dormir profundamente num lugar quentinho?

Quando adormeço, visito outros mundos
Às vezes, sou outro gato em outra vida
Passeio lá fora aqui dentro
 
Pela janela vejo a vida em movimento
E ronrono: lá fora, aqui dentro
Tudo é sonho

15 de mar de 2015

joaquim

gato esperto
    à espreita
     do pouso
da borboleta

9 de mar de 2015

trecho


(...) Eu tinha 12 anos quando minha avó morreu. Três dias antes, ela estava lá, na cozinha que eu conhecia desde sempre, eu e ela em frente ao fogão, duas colheres de pau misturando a massa do brigadeiro na panela de ferro, e eu ria cada vez que mergulhava a ponta do dedo no chocolate quente, Nina, desse jeito você acaba com o recheio do bolo! Ela estava lá, fazendo as coisas de sempre, perguntando da escola, se eu tinha ido ao dentista, querendo saber das novidades e me pedindo pra ligar o forno enquanto untava a forma com uma nuvem fininha de manteiga. Ela ainda estava lá, de pé, ao lado do portão, quando saí carregando o embrulho de papel alumínio com todo o cuidado, minha mãe com o carro ligado, reclamando do trânsito, prometendo voltar no sábado, e o cheiro quente do bolo dentro do carro, virando a esquina enquanto ela acenava pra nós. Ela ainda estava lá.

28 de fev de 2015

as horas

     a espera
         estica
     o tempo
         altera
     a lógica
  do relógio
    suspende
      o agora 
     e brinca:
              tic
    enquanto
             tac
         ainda

20 de fev de 2015

livro novo, oba!


vai e vem, levando folha, papel e pensamento
vem e vai, imprevisível a cada momento
faz a gente ficar arrepiada, alegre e também triste
faz a gente lembrar que as coisas invisíveis existem

17 de fev de 2015

carnaval

O enredo era simples: a turma se reunia no pátio do prédio pro ensaio geral, formava duplas ou trios e depois, todos juntos, atravessávamos a avenida da praia de José Menino, em Santos, devidamente equipados com bisnagas coloridas, sacos de confete, muitos rolos de serpentina e um bom estoque de martelinhos de plástico. Organizados em alas, os grupos se posicionavam em pontos estratégicos ao longo da calçada, a postos pra dar banho de água e alegria em quem passasse. Os que não entravam no espírito da folia, levavam martelada e tinham que sair correndo debaixo de vaia. A certa altura, mães e pais começavam a aparecer, chamando pra jantar e, mais ou menos contrariados, íamos todos pra casa, com a promessa de um novo encontro logo cedo, na praia. Lembro de adormecer ouvindo os ruídos que seguiam chacoalhando a cidade noite adentro, com o carnaval grudado no meu corpo em forma de confete.

11 de fev de 2015

o mistério da gaveta

(...) então os olhos da vó Delma resolveram olhar pra dentro, quem sabe o que poderiam encontrar lá na cabeça? No início, arregalaram, cheios de expectativa, esperando tropeçar numa grande surpresa a qualquer momento. Mas depois de explorar todos os cantos daquele espaço oco e redondo sem que nada acontecesse, foram perdendo o brilho. Durante algum tempo continuaram por ali, murchinhos, perambulando sem foco, esquecidos do que tinham ido procurar lá dentro (...)

Dez anos e muitas reimpressões depois, volto ao meu primeiro livro, que será reeditado no segundo semestre com tintas fresquinhas no texto e nas ilustrações.

9 de fev de 2015

espelho

nuvens de espuma
flutuam em ondas
nas superfícies azuis

29 de jan de 2015

21 de jan de 2015

escrever

 "quando você está escrevendo bem, é como se alguém estivesse ditando".

(do escritor português Antonio Lobo Antunes, na Flip, em 2009)

15 de jan de 2015

chegou!


Feliz por fazer parte desta coletânea organizada pelo Nelson de Oliveira, ao lado de uma turma estreladíssima de escritores: Adriano Messias, Carla Caruso, Claudio Fragata, Cristina Porto, Flávia Côrtes, João Anzanello Carrascoza, Leo Cunha, Luís Dill, Luiz Bras, Maria José Silveira, Marília Pirillo, Sônia Barros, Tânia Martinelli e Tino Freitas. Com um projeto gráfico caprichado de Raquel Matsushita, que também assina as ilustras, o livro ficou... Como dizer? Supimpa!E aqui, um trechinho do meu conto, "Dani vai dançar".

13 de jan de 2015

mar

no sonho líquido
mergulho nas ondas
desmancho na espuma
sal bolhas bruma
boca e olhos de areia
sons de sereias

11 de jan de 2015

verão

O frescor da manhã dura pouco. O dia acorda quente e agitado, sem tempo pra descansar na sombra ou pra se refrescar de brisa: não há nuances sob o sol de verão, e talvez por isso seja tão difícil escrever. É como se a vida acontecesse apenas lá fora, elétrica e radiante, alegria de cigarras, insetos e pessoas em atividade frenética chamando pra festa: vem! No calor das horas, tudo se expõe sem pudor, ruas, árvores, corpos e humores adquirem contornos exatos ao meio-dia. Mas as palavras se dissolvem, enfraquecidas, preguiçosas, dispersivas, à espera de nuvens que tragam alguma calma e, com sorte, concentração e sua promessa de histórias e tempestade.

9 de jan de 2015

preocupação

É como uma nuvem que estaciona em cima da gente e encobre o pensamento em sombras, anunciando uma tempestade que nem sempre acontece.

3 de jan de 2015

de novo no ano novo

Começo 2015 voltando ao meu primeiro livro: “O Mistério da Gaveta” vai mudar sem sair da casa onde mora há dez anos. Junto com o novo projeto gráfico, com direito a capa dura, e novas ilustrações, veio a chance de rever o texto escrito em 2003. Nos próximos dias, vou me reencontrar com vó Delma, a personagem que não se conforma por ter sido abandonada pelo autor, dentro de uma gaveta, com um misto de medo e alegria, como quem vai receber alguém querido que estava distante há muito tempo. Vamos colocar o papo em dia, mas torço pra que o nosso assunto não tenha perdido o frescor e eu consiga percorrer as suas aventuras sem a alterar a trilha dessa fábula sobre a criatividade.
A segunda novidade também é uma volta, igualmente acompanhada de muitas expectativas: daqui a um mês, sou aluna de novo, no curso de pós-graduação de formação de escritores. Mas com tantos livros publicados, como assim? Pra quem tem me perguntado a resposta é simples: tem a ver com voltar a mim mesma e talvez descobrir outros jeitos de me escrever nos muitos novos livros que estão por vir.