30 de abr de 2016

casa

Os dias passam enquanto percorro os corredores do supermercado, espero a vez no posto de gasolina, na fila do banco, no balcão da farmácia, e a reunião marcada para as 2 começa às 3 e só engata no assunto às 4. No meio disso tudo, cruzo com tantas distrações, acenando, convidativas, vem, vamos tomar um café, e se a gente fosse ao cinema, é o último dia daquela exposição, só um giro pelo facebook, que mal tem? Dias assim me levam para longe, nem sempre consigo voltar.
Estou em casa quando tudo é silêncio: então ouço a campainha, abro a porta e me acomodo para receber as palavras que vem me visitar.

28 de abr de 2016

preocupação

é uma nuvem que encobre o pensamento em sombras, ameaçando tempestades que nem sempre acontecem.

4 de abr de 2016

memória

Às vezes é uma frase, ou nem isso: é só o jeito de dizer. Certa música, um cheiro inesperado, coisas que acontecem e imediatamente me colocam em outro lugar, como se eu estivesse sentada na cabine de um trem que me leva em alta velocidade rumo aos meus sete, oito anos. Na primeira estação, uma menina acena da plataforma, sorri pra mim e no mesmo instante já está dentro do vagão, sentada ao meu lado, repetindo a frase ou trazendo de volta o perfume que agora viaja comigo. A viagem prossegue e ela se acomoda no meu colo; pouco a pouco adormece dentro de mim, ninada pelo sacolejo rápido do trem, sonhando num tempo que nunca envelhece.

26 de mar de 2016

caras palavras

sol é palavra que brilha
solidão é palavra-ilha

música é palavra que canta
segredo é palavra que não conta

na estripulia, a palavra pula
na imaginação, fabula

é como se tivesse olhos
boca, ouvidos e nariz

a palavra dá um rosto
a tudo que diz

13 de mar de 2016

dani vai dançar

(…) Tenho onze anos e sempre dou um jeito de ficar doente ou inventar uma desculpa pra não participar das aulas de educação física. Mas hoje o professor não me dispensou e depois do aquecimento me convoca pra fazer parte de um dos times de vôlei. Não tenho chance de dizer que não sei jogar, minha boca trava, a voz desaparece pra sempre. Então ele me chama, do centro da quadra, apontando a posição que devo ocupar, e chama de novo porque não me mexo, na inútil esperança de que alguém se ofereça e me salve do desastre. Enquanto caminho em direção à quadra percebo um grupinho de meninas cochichando e rindo, na mesma hora tenho certeza de que estão falando de mim, por isso abaixo a cabeça e sigo, devagar, suando dentro do uniforme, desconfortável, desajustada, sempre eu. O jogo começa, a bola passa voando por cima da minha cabeça, uma vez, duas, e de novo, o time vai trocando passes como se eu não existisse, e de repente algo acontece, uma coisa por dentro, forte, uma espécie de raiva que me lança pro alto, é só um impulso mas me deixo levar e subo: meu corpo ultrapassa o limite da rede, o braço esticado e minha mão lá em cima, alcançando a bola antes das outras mãos com um toque certeiro, delicado, inesperado: marco um ponto para o time, todos comemoram. Pela primeira vez, aplausos.
trecho de "Dani Vai Dançar, meu conto em "A Vida é Logo Aqui", coletânea organizada por Nelson de Oliveira, pela editora Sesi-SP

7 de mar de 2016

relicário


No começo, era só um vaso de barro não muito grande, duas mudas magrinhas, promessas de felicidade e fortuna enraizadas na mesma terra. Cresceram devagar sobre as pedras que iam chegando de tantos lugares, plantando ali histórias de rios, montanhas e dias de sol. Hoje as árvores tocam o teto da sala, abraçadas dentro de um vaso largo e amarelo, junto com os cristais transparentes, o buda da sorte, a corujinha de pedra-sabão da mãe, o enfeite que o filho fez numa noite de um natal distante. Gosto de rezar assim: regando a minha planta.

1 de mar de 2016

gatos

a língua-lixa lambe
com delicadeza
varre a pele
com doçura
fala do afeto
com dureza
na língua dos gatos
amor rima com aspereza

19 de fev de 2016

escrever

A moça abaixa o vidro do carro e acende um cigarro. Seu olhar preocupado passa rapidamente pelo espelho lateral. Solta a fumaça e parece relaxar, a cabeça pendendo sobre o ombro por um brevíssimo instante. Então alguém buzina e, automaticamente, ela e eu engatamos e seguimos. Continuo atrás do seu carro por alguns quarteirões, mantendo certa distância: para onde ela estará indo? Me divirto imaginando enredos para aquela personagem: ela tem 30 e poucos anos, usa maquiagem leve, batom discreto. Poderia ser advogada ou, quem sabe, uma executiva tensa, atrasada para a reunião na empresa, as duas mãos segurando firme na direção do carro preto, quatro portas travadas. As árvores que ladeiam a avenida desenham reflexos disformes nos vidros revestidos com película escura, através da qual ela infelizmente não pode ver o céu tão azul desse início de tarde. Pouco antes de uma lombada, ela diminui a velocidade e, por um instante, seus olhos me encaram pelo retrovisor, como que dizendo: ei, você, preste atenção, não vá bater no meu carro! Ou quem sabe tenha percebido e se incomodado porque eu a observava. Quando canso da brincadeira, dobro a esquina e retomo o meu caminho, mas de repente me surpreendo ao ver o carro dela, agora atrás do meu. Antes de nos percamos de vista, lembro do olhar me encarando pelo espelho e penso que, talvez, também ela inventava uma história para mim.

11 de fev de 2016

calma

Às vezes, ela entra pelos olhos, aproveitando o momento em que eles se fixam no céu para acompanhar um desfile de nuvens, ou então grudam num livro, encantados pelas palavras. Também acontece de ela penetrar pelo nariz e se esparramar, espaçosa, preenchendo todos os cantos com ar de férias -- um ar sem pressa, mais pleno de ar. Quando ela chega, o giro dos pensamentos entra em câmera lenta, o peito alarga e o coração espreguiça, batendo no compasso de uma felicidade quieta, que se anuncia sem disparos. Calma é assim: uma música silenciosa que muda o ritmo de tudo dentro da gente.

27 de jan de 2016

saudade

Hoje ela apareceu logo cedo, entrou na cozinha e me surpreendeu ainda de pijama: um susto, eu e o pão pulando da torradeira, e de repente o gosto do lanche que você levava para a escola. A saudade me dá bom dia e diz: hoje também é ontem. Então a convido para ficar, ofereço café fresquinho e espalho lembranças de manteiga nas fatias de um tempo que nunca acaba.

18 de jan de 2016

um, dois, três: assim começa uma história

No começo e durante muito tempo era apenas o Um.
Certo dia, alguém trouxe o Dois, um siamês ensimesmado -- ou talvez fosse melhor dizer com todas as letras: convencido de sua suposta superioridade – olhando com ares azuis para tudo e todos. O que não tinha em majestade e beleza felinas, Um compensava com um afeto mamífero irresistível, sempre pronto para retribuir cafunés com longas sessões de massagem, duas patas alternando toques de carinho no ritmo de um ronronar enérgico. Diferente de Dois, a vira-latice de Um o predispunha a se agrupar com uma docilidade realmente única: por isso, recebeu o novo companheiro de peito aberto, mostrando logo o quanto queria formar um par com Dois. Com a convivência, Dois encontrou seu lugar e a vida se encaixou em sua sequência lógica até a chegada de Três. Enorme em tamanho e afetividade, o cachorrão levou algum tempo para conquistar a confiança dos gatos, mas ao cabo de algumas semanas, sua determinação ímpar venceu todas as barreiras – sob o olhar incrédulo de Dois, Um não demorou a se entregar às lambidas de Três, macho com aptidões maternais, golden feito de mel, no mesmo tom caramelo dos seus pelos e dos seus instintos grudentos.
A dona da casa gostava dos bichos e, mais ainda, dos números -- esse era o seu alfabeto, um jeito de ler o mundo do zero ao infinito. Por isso, há muito tempo, deixara de ser Camila para se tornar Mil, um nome-número com som de estrada longa, gosto de fartura e vocação para grandes sonhos.

2 de jan de 2016

feijões

No final de 2014, lembrei aqui daquela experiência que todo mundo já fez nas primeiras aulas de biologia: a de colocar um grão de feijão sobre um punhado de algodão com água, dentro de um pote transparente. Bastava deixar o recipiente num lugar bem iluminado, umedecer o algodão, caso secasse, e esperar. O feijão enrugava e logo aparecia a pontinha de um caule que cresceria rápido, feito mágica, rodeado de folhas verdes. Eu aguardava 2015 com grande expectativa -- a de ver surgirem os brotos de todas as sementes que eu havia plantado. Infelizmente o ano não floresceu como se esperava: difícil para os feijões, e também para o mercado editorial, com contratos cancelados, publicações adiadas, más notícias por toda parte. Mas justamente nesse ano tão árido as palavras brotaram, mais férteis do que nunca, embebendo minha nuvem de algodão com histórias inesperadas. É com esse frescor que começo 2016, e se o tempo da colheita ainda não chegar, que continue inspirando o plantio de muitos sonhos, as melhores palavras e deliciosos feijões.       

24 de dez de 2015

hoje

natal é saudade de uma noite antiga, as crianças de olhos arregalados procurando papai noel entre as estrelas que brilhavam muito mais sobre a cidade do interior, o céu exuberante iluminando os sonhos dos grandes e dos pequenos; de repente, gritos de alegria, a excitação saltando entre nós que víamos, num relance, a nuvem-trenó, olha, olha, ele está chegando!, e logo apareciam os pacotes coloridos, a árvore generosa presenteando a inocência dos nossos desejos e plantando -- eu ainda não sabia -- a saudade de uma noite antiga.

18 de dez de 2015

receita

os ingredientes são fáceis de achar
assim como o modo de preparar:
em taças de cristal com reflexos azuis
(para ficar bem composto!)
sirva duas bolas de sorvete de nuvem
coloque uma pitada de farofa de estrela
acrescente creme da Via Láctea a gosto
e regue com calda de lua cheia
ah! para acompanhar alguém traz
biscoitos-desejo sabor sorte e paz
e então é só fechar os olhos e provar
essa sobremesa pra lá de especial:
néctar da noite de natal

8 de dez de 2015

ops!

Um lapso se explica por si só: é como o seu próprio Pê: uma letra que escapa de repente e se intromete no meio da palavra, saliente e óbvia, mostrando que tem voz, mesmo quando parece muda.

27 de nov de 2015

vazio


no quarto não há móveis, só marcas de pôsteres que, um dia, cobriram as paredes, e algumas revistas espalhadas sobre o piso frio, como gravetos de um ninho que se desmanchou.

18 de nov de 2015

trecho

de coisas que ando escrevendo...

(…) Pra mim, essa história de conexão entre gêmeos é puro folclore. A baboseira de que um sente o que o outro tá sentindo e tudo o mais. E sempre tem alguém contando dos irmãos separados na maternidade, adotados por pais diferentes, morando cada um num país, e morrendo no mesmo dia, do mesmo jeito. As pessoas exageram, mistificam tudo. Como se ter um gêmeo fosse uma coisa meio mágica unindo duas pessoas em tudo pra sempre. Isso é totalmente bizarro. A vida de cada um é única e o que tem dentro da gente só a gente sabe. A gente e as pessoas com quem a gente se conecta de verdade. Ela... Pensei que era de verdade. Mas como ela pode ter achado que ele era eu? Quer dizer que todas as vezes em que olhei nos olhos dela, foi só isso que ela viu, a mesma cara do Júlio?

7 de nov de 2015

inquietação

é como o vento despenteando árvores e o fogo que se lambuza na madeira seca fazendo tudo crepitar dentro da gente.