31/08/2014

sol

o inverno amanheceu sorrindo
vestiu azul e se esquentou
com o abraço do domingo
  

26/08/2014

de uma história que está começando (2)

Tenho doze anos e sempre dou um jeito de ficar doente ou inventar uma desculpa pra não participar das aulas de educação física. Mas hoje o professor não me dispensou e depois do aquecimento me convoca pra fazer parte de um dos times de vôlei. Não tenho chance de dizer que não sei jogar, minha boca trava, a voz desaparece pra sempre. Então ele me chama, do centro da quadra, apontando a posição que devo ocupar, e chama de novo porque não me mexo, na inútil esperança de que alguém se ofereça e me salve do desastre. Enquanto caminho em direção à quadra percebo um grupinho de meninas cochichando e rindo, na mesma hora tenho certeza de que estão falando de mim, por isso abaixo a cabeça e sigo, devagar, suando dentro do uniforme, desconfortável, desajustada, sempre eu. O jogo começa, a bola passa voando por cima da minha cabeça, uma vez, duas, e de novo, o time vai trocando passes como se eu não existisse, e de repente algo acontece, uma coisa por dentro, forte, uma espécie de raiva que me lança pro alto, é só um impulso mas me deixo levar e subo: meu corpo ultrapassa o limite da rede, o braço esticado e minha mão lá em cima, alcançando a bola antes das outras mãos com um toque certeiro, delicado, inesperado: marco um ponto para o time, todos comemoram. Pela primeira vez, aplausos.
(...)

25/08/2014

felicidade


é sair pedalando e parar numa livraria.
...
a ilustração é de Zack Rock via Animalarium.

22/08/2014

o motim

cansado de tanto triturar, o liquidificador para de funcionar e avisa:
-- hoje não tem expediente, estou com dor de dente!
na mesma hora o ferro de engomar desliza pela tábua de passar e decreta: 
-- também vou fazer greve, chega de trabalhar ardendo de febre!
e não é que o aspirador começa a engasgar e aproveita pra entrar na farra? 
-- estou tão entupido de pó que a partir de agora não aspiro nem na marra...
então o fogão abre as suas seis bocas e lança chama na fogueira:
-- já que ninguém quer trabalhar, também vou pifar. Só falta você, geladeira!

porque hoje todos os eletrodomésticos resolveram encrencar...

19/08/2014

de uma história que está começando

Filha, eu estou lendo, e quem quer sorvete é você. É só ir até lá e pedir pro moço! 
Talvez seja meio-dia, o sol é o dono da praia e estou sentada na areia, a dois passos dos pés da minha mãe. Tenho seis anos e tudo o que mais quero é um picolé de chocolate. As três meninas continuam ali, de pé, ao lado do sorveteiro, conversam sem parar, palitos pingando chuva sabor limão, quem sabe abacaxi, na areia quente. Estão hospedadas no mesmo hotel que eu -- já estavam lá quando chegamos. Então não. Pego a pazinha vermelha, cavoco a areia com força e faço um buraco enorme querendo me enterrar com a minha timidez (…).

18/08/2014

dicionário imaginário

--> Ansiedade (s.f.): é o que acontece quando o tic não consegue esperar e quase atropela a vez do tac.

12/08/2014

a dúvida do passarinho

da árvore-poste de cimento
            um passarinho olha
pra moça presa no congestionamento
            dentro do seu carro-gaiola

bem que o passarinho queria perguntar:
              isso é o seu ninho
              ou você tem medo de voar?

* Pra turma da Batatinha do Sesi, de São Bento do Sul, beijo!!!! 

06/08/2014

o passado

no portarretrato: a infância do filho e a presença da mãe: era um domingo e eu não sabia que estava fotografando a saudade.

04/08/2014

bom dia

uma manhã de verão no meio do inverno, um sorriso abrindo com a porta do elevador, uma ideia pra continuar o conto que comecei a escrever: um dia com tudo pra ser bom.

28/07/2014

inverno

é como um toque de recolher: os dias vão embora mais cedo, encolhidos de frio, e a vida lá fora fica mais quieta pedindo pra gente escutar as palavras de dentro.

23/07/2014

escrever

É como mobiliar uma casa vazia.
Às vezes começo colocando um sofá e tapetes na sala. De vez em quando, os primeiros móveis vão direto para o quarto, e é lá que fico morando um tempão, esquecida dos outros espaços da casa.
Habitar um novo texto: cada vez acontece de um jeito, mas uma história só termina quando a casa está completa, com roupas dentro do armário, cheiro de bolo assando no forno, portarretratos e objetos espalhando lembranças por todos os cantos.
Enquanto moro nesse lugar, muitas vezes mudo a decoração, hospedo pessoas que vão e vem, aprendo a conviver com quem vai ficando. No final, quase sempre é difícil abandonar essa morada, tudo em volta já se tornou querido e familiar demais. A hora de ir embora sempre é um pouco triste, mas não só: também fico feliz vendo a casa finalmente pronta pra receber visitas.
Depois disso, passo um tempo perambulando pela cidade, me atrevo por bairros desconhecidos, descubro ruas simpáticas e, em algum momento, me interesso por outro endereço. Nos primeiros dias, estranho os barulhos da vizinhança, a cara do jornaleiro, a distância até a padaria. Mesmo assim, decido ficar, vou me instalando aos poucos e penduro os primeiros quadros nas paredes brancas, com o cheiro da tinta fresca anunciando uma história novinha em folha.

21/07/2014


"Longe" ganhou uma resenha muito bacana lá site das Garatujas Fantásticas. Obrigada, Tati Arcolini!

17/07/2014

mosca

  se o pensamento
não quer saber de
                 pensar
não adianta forçar

às vezes o pensamento
     quer passear por aí
                          arejar
pensamento sabe voar  

e que zanze feito mosca
e paire em cima da rosca
e circule em volta da louça
e imite o andar da moça

e vai que, assim, moscando à toa
o pensamento se enrosca
em alguma ideia boa?

11/07/2014

era uma vez outra Cinderela

… e a história termina assim:

A festa de casamento foi magnífica e os primeiros dias no castelo pareciam um sonho. Tanto que a princesa precisava se beliscar a todo instante para ter certeza de que não estava delirando. Mesmo assim, depois que anoitecia, Cinderela ia entrando em pânico, com medo de que tudo se desmanchasse por encanto, à meia-noite. Como não via a hora de ser feliz para sempre, o príncipe ordenou que todos os relógios do reino fossem destruídos. Nunca mais se ouviu nenhuma badalada e, aos poucos, a princesa sossegou. Mas não muito. Acontece que o Tempo é poderoso e não para nem mesmo sob as ordens de um príncipe. Ao final de cada dia, continuava escurecendo e, perto da hora H, o coração da princesa disparava como um alarme. Então o casal pensou e pensou até descobrir um outro jeito pra continuar sendo feliz: todas as noites, ouvindo o tic-tac do coração da Cinderela, eles trocam juras de amor eterno até a meia-noite seguinte. 
Por enquanto, está dando certo. 

01/07/2014

dois

o mesmo vento
envolve
dois pensamentos

a mesma tarde quieta
acolhe
duas bicicletas

no mesmo segundo
giram
dois mundos

e a ilustração é da Maria Eugenia.

26/06/2014

os nomes das coisas

sol é palavra que brilha
solidão é a palavra ilha

música é palavra que canta
segredo é palavra que não conta

estripulia é palavra que pula
imaginação é palavra que fabula

é como se tivesse olhos
boca, ouvidos e nariz

cada palavra
dá um rosto
a tudo que se diz

18/06/2014

esboços

Meu nome é Preto Pretinho Tom Domenico Xavier Ogato Péricles-da-Silvia.
Não costumo me apresentar assim e nunca fui chamado desse jeito, quer dizer, com tudo junto ao mesmo tempo. Mas já que resolvi escrever um livro sobre as minhas sete vidas vocês precisam saber que tenho – ou melhor: tive -- todos esses nomes. Um de cada vez, claro.
Fora os apelidos. Pipo, por exemplo, virou uma espécie de sobrenome na época em que me chamavam de Ogato. Já o detestável Ronrom praticamente substituía o nome oficial da quinta vida: “XAVIER” só era mencionado (assim mesmo, em voz maiúscula) nas horas mais... Como dizer? Bem... Tensas. Em compensação, também tive o prazer de ser tratado por Dom na maior parte do tempo em que me batizaram de Domenico. Dom é adorável, não acham? Simplesinho e, ao mesmo tempo, tão elegante! Cá entre nós, se tivessem pedido a minha opinião, bem que eu gostaria de ter sido sempre e apenas Dom, não só durante a quarta vida, por sinal, uma das melhores (…)

em construção: um "começo de história" e um "estudo de gato" do Daniel Kondo, 

13/06/2014

chegou!

A ilustração de Maria Wernicke não só renovou o meu "Longe" como ampliou a narrativa no seu melhor tom. Estou feliz demais com essa parceria e com a edição primorosa da Salamadra.

11/06/2014

na cabeceira

"As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo."

Amando todas as palavras do último livro de Valter Hugo Mãe ("A Desumanização").

06/06/2014

gota de chuva

   dia cinza
      tinge    
      tudo
        de
     triste
   a xícara
  as ideias
   a gente
     nada
    resiste