1 de jul de 2015

reviravento

vento atrevido
bate no vidro
atravessa janelas
apaga velas

pássaro sem asa
circula pela casa
assobia inquietação
entre as frestas

papéis no chão
como folhas na floresta
de repente a agitação
de fantasmas em festa

tão vivo o invisível
vento

25 de jun de 2015

21

Você me olhou de um jeito tão sério que fiquei sem graça.
Tinha imaginado o nosso primeiro encontro de tantas maneiras, nunca assim: silencioso, quase solene. Eram 11 da manhã, fazia um frio danado lá fora, exatamente como hoje. Por um momento, a gente ficou se encarando com estranheza, ainda sob o impacto de termos sido separados -- o cordão que nos unia numa intimidade tão absoluta tinha sido cortado.
De repente, era assim: você e eu.
Diferente do que sempre pensei, o amor não explodiu, óbvio, imediato. Foi vindo devagar, dia após dia, e se tecendo forte, num laço invisível, macio e elástico, que segue crescendo à medida em que você também cresce.
Às vezes, você entra em casa e me dá oi daquele jeito sério. Vinte e um anos depois, reconheço o mesmo olhar da maternidade e, inesperadamente, sinto uma onda de amor que explode vendo você chegar mais uma vez.

24 de jun de 2015

tempo

Às vezes acontece por conta de certas palavras, ou nem isso: é só o jeito de dizer. Uma música, um cheiro, coisas inesperadas de repente me levam pra outros lugares, como se eu estivesse sentada na cabine de um trem, sendo conduzida em alta velocidade enquanto olho pela janela e vejo a paisagem, imensa, passando devagar por todas as meninas que fui. Então reconheço a garota de uns 13 anos que se acha tão feia e boba e, num impulso, convido: vem comigo! Ela sorri e no mesmo instante já está dentro do vagão, pertinho de mim. Ajeito sua cabeça no meu ombro, aliso os cabelos longos e, juntas, adormecemos, ninadas pelo sacolejo rápido do trem, sonhando um tempo que nunca envelhece.

21 de jun de 2015

19 de jun de 2015

um dia assim:

vento frio
tarde cinza
tudo se tinge de triste
a mesa
a xícara
a poesia
nada resiste

17 de jun de 2015

letrinhas no céu



Queria aprender o alfabeto das nuvens pra ler as histórias que vejo passar.

12 de jun de 2015

viu?

quando quer me cutucar
o invisível vira vento
 
se quer conversar
faz voz de pensamento
 
às vezes me assusta
disfarçado de fantasma
 
certos dias me encanta
fazendo mágica de fada
 
invisível é assim:
feito os anjos e o tempo
 
só vê quem sabe olhar
com os olhos de dentro

8 de jun de 2015

Péricles somos nós


um trechinho da história do gato Péricles:

Virei Péricles-da-Sílvia por conta da teimosia da própria. Estou me referindo à Sílvia, claro. Lá estava eu, desiludido de todas as minhas vidas quando ela me achou, faminto e chateado, perambulando pelas ruas. Foi assim que minha sexta vida acabou cruzando com a primeira do jovem Péricles, um siamês vesguinho e muito simpático que já morava na casa há alguns meses. Vocês sabem, sou temperamental e meio arisco, mas andava tão carente naquela época que não resisti ao chamego dela e entrei no carro sem miar, mesmo desconfiando daquela história de “meu Péricles”. Deduzi que ela tinha me confundido com outro gato e me fiz de desentendido, sonhando com uma refeição farta num canto quentinho, antes que ela percebesse o possível engano. Mas não era nada disso. Descobri tudo logo que chegamos em casa: o que a Sílvia queria mesmo era um gato pra chamar de seu, e de Péricles! Até hoje não sei se foi falta de imaginação ou pura birra, mas ela tanto fez e teimou que teimou e bateu o pé até dar no que deu: dois Péricles, eu e o da Julia, vivendo sob o mesmo teto e sobre os mesmos telhados.
A coisa toda era confusa, mas com o tempo aprendemos a reconhecer quem estava sendo chamado a cada momento, eu ou o Péricles-da-Júlia. De todo modo, foi uma época gostosa, com rações miauvilhosas pra cada um de nós, servidas em tigelinhas separadas. A minha, felizmente, não era estampada com florzinhas e gatinhos ridículos, como a do meu xará. Mas ele não parecia se importar com isso. Também tínhamos banheiros privativos, cada qual com a sua bandeja, e cestinhas aconchegantes pra dormir confortavelmente sempre que desse vontade.
Vira e mexe penso nele, o pequeno Péricles... Será que ele teve a mesma sorte que eu?

1 de jun de 2015

numa manhã escura

como hoje, eu era pequena e tinha medo que a noite nunca terminasse. Então me escondia debaixo da coberta, encolhida no meu quarto de filha única, quietinha, até ouvir o barulho dos pratos e talheres acordando na cozinha, e sentir o cheiro bom da loção pós-barba passando pelo corredor; mãe e pai: minhas certezas a cada amanhecer.

30 de mai de 2015

trecho

--> de uma história que está começando:

(...) Aos poucos, as coisas foram clareando, para o bem e para o mal. Livre do tampão e com a ajuda das grossas lentes dos óculos que comecei a usar logo em seguida, finalmente comecei a enxergar. De repente, contornos firmes, cores fortes, todas as imagens nítidas e de novo eu: fora de foco, deslocada, sem conseguir me encaixar nas situações, nas conversas, nos lugares. A sensação de rejeição não era exatamente uma novidade, a diferença é que, agora, eu não tinha como não ver. Então me refugiava num outro mundo, o que descobri bem antes de meus olhos voltarem a ser quase paralelos, um canto só meu, cheio de visões e imaginação, a casa pra onde continuo indo sempre que fica difícil encarar as coisas como elas são.
Dentro dos meus desenhos, é lá que quero morar.

23 de mai de 2015

ninho

passarinho, abrigo, leite em pó
casa na árvore, carinho, colo de avó

gravetos e ramos entrelaçados num grande nó
abraço e amor misturados numa coisa só

12 de mai de 2015

do verbo sonhar

e seus tempos oníricos: passado inventado, presente-quase-perfeito, futuro do imaginário.

9 de mai de 2015

mãe

a fivela-pente
o anel de pérola
o bilhete com a letra dela
uma foto-binóculo
o lenço de rendinha
e a saudade
dentro da caixinha

5 de mai de 2015

raça

e porque ela sempre latia e rosnava por força (e certa vaidade) de seu pedigree nervoso, ninguém imaginava o quanto a mini-poodle tinha detestado o cheiro do xampu, o corte esquisito e aqueles horríveis lacinhos vermelhos.

27 de abr de 2015

paisagem

a casa se plantou ao lado da árvore
e pintou a sombra de amarelo-alegria
abriu uma grande janela na frente
feliz de ter vizinho-passarinho
cantando bom dia

depois de um tempo de estranhamento
a árvore fez amizade com o cimento
foi-se enraizando pelo chão da casa
e hoje seu braço mais alto vive apoiado
na curva suave do telhado

quem vê as duas assim entrelaçadas
não sabe dizer quem nasceu antes
mas isso não é nada importante diante
de uma casa e uma árvore
vivendo abraçadas

14 de abr de 2015

saudade

Hoje ela apareceu logo cedo, entrou na cozinha e me surpreendeu ainda de pijama: um susto, eu e o pão pulando da torradeira, e de repente o gosto do lanche que você levava pra escola. A saudade me dá bom dia e diz: tudo parece ontem, mas ontem é outro tempo. Novo susto e agora choro do lado do fogão, enquanto a saudade vai se espalhando pela casa, misturada com o cheiro do café fresquinho.

7 de abr de 2015

tímida

A menina: palavras contidas entre parênteses, sorriso apertado entre aspas, e os olhos, quase sempre baixos, pra não se relevar nas entrelinhas.