5 de mai de 2015

raça

e porque ela sempre latia e rosnava por força (e certa vaidade) de seu pedigree nervoso, ninguém imaginava o quanto a mini-poodle tinha detestado o cheiro do xampu, o corte esquisito e aqueles horríveis lacinhos vermelhos.

27 de abr de 2015

paisagem

a casa se plantou ao lado da árvore
e pintou a sombra de amarelo-alegria
abriu uma grande janela na frente
feliz de ter vizinho-passarinho
cantando bom dia

depois de um tempo de estranhamento
a árvore fez amizade com o cimento
foi-se enraizando pelo chão da casa
e hoje seu braço mais alto vive apoiado
na curva suave do telhado

quem vê as duas assim entrelaçadas
não sabe dizer quem nasceu antes
mas isso não é nada importante diante
de uma casa e uma árvore
vivendo abraçadas

14 de abr de 2015

saudade

Hoje ela apareceu logo cedo, entrou na cozinha e me surpreendeu ainda de pijama: um susto, eu e o pão pulando da torradeira, e de repente o gosto do lanche que você levava pra escola. A saudade me dá bom dia e diz: tudo parece ontem, mas ontem é outro tempo. Novo susto e agora choro do lado do fogão, enquanto a saudade vai se espalhando pela casa, misturada com o cheiro do café fresquinho.

7 de abr de 2015

tímida

A menina: palavras contidas entre parênteses, sorriso apertado entre aspas, e os olhos, quase sempre baixos, pra não se relevar nas entrelinhas.

1 de abr de 2015

mentiras sinceras

"Bem sei que é nas memórias que os homens mentem mais (...) Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar ideia de que está falando a verdade pura." 
("Memórias da Emília", de Monteiro Lobato)

28 de mar de 2015

23 de mar de 2015

quer saber um segredo?


o segredo da menina é precioso como uma pérola
e vive escondido dentro de uma concha que é só dela

o segredo do menino é valioso como ouro
e fica trancado num baú como se fosse um tesouro

mas, às vezes, o assunto é complicado
e já não consegue continuar trancafiado

daí começa a aparecer feito assombração
e faz de tudo para tentar sair da sua prisão

de repente, tenta escapar, mas fica sem voz
e para na garganta, engasgado num monte de nós

a menina morde os lábios e o menino se cala
mas não adianta: de outros jeitos, o segredo fala

feito vento invisível que movimenta tudo
o silêncio diz muito, mesmo se fingindo de mudo

e a lágrima vira palavra de letra transparente
que os olhos escrevem de um jeito urgente

quando um segredo teima em se contar
é melhor ter alguém com quem conversar

não se engane: ele vai continuar mandando recado
como um velho ranzinza e bem magoado

a concha abre devagarzinho: o menino presta atenção
a ponta do baú aparece: a menina tropeça na emoção

e então eles descobrem outro tesouro
mais precioso do que mil pérolas e todo o ouro

um lugar seguro, onde todos os segredos cabem
como um grande cofre que não precisa de chave

por lá, os segredos circulam à vontade
protegidos por um laço chamado amizade

17 de mar de 2015

uma noite, um gato



Lá fora tem um mundo tão grande!
Quantas coisas pra descobrir...

Ao mesmo tempo, é bom estar aqui
No meu mundo de silêncio e contemplação

Lá fora tem o escuro da noite, as ruas desconhecidas
Mas... Quantas aventuras podem acontecer?

Será tão bom quanto me espreguiçar à vontade
E dormir profundamente num lugar quentinho?

Quando adormeço, visito outros mundos
Às vezes, sou outro gato em outra vida
Passeio lá fora aqui dentro
 
Pela janela vejo a vida em movimento
E ronrono: lá fora, aqui dentro
Tudo é sonho

15 de mar de 2015

joaquim

gato esperto
    à espreita
     do pouso
da borboleta

9 de mar de 2015

trecho


(...) Eu tinha 12 anos quando minha avó morreu. Três dias antes, ela estava lá, na cozinha que eu conhecia desde sempre, eu e ela em frente ao fogão, duas colheres de pau misturando a massa do brigadeiro na panela de ferro, e eu ria cada vez que mergulhava a ponta do dedo no chocolate quente, Nina, desse jeito você acaba com o recheio do bolo! Ela estava lá, fazendo as coisas de sempre, perguntando da escola, se eu tinha ido ao dentista, querendo saber das novidades e me pedindo pra ligar o forno enquanto untava a forma com uma nuvem fininha de manteiga. Ela ainda estava lá, de pé, ao lado do portão, quando saí carregando o embrulho de papel alumínio com todo o cuidado, minha mãe com o carro ligado, reclamando do trânsito, prometendo voltar no sábado, e o cheiro quente do bolo dentro do carro, virando a esquina enquanto ela acenava pra nós. Ela ainda estava lá.

28 de fev de 2015

as horas

     a espera
         estica
     o tempo
         altera
     a lógica
  do relógio
    suspende
      o agora 
     e brinca:
              tic
    enquanto
             tac
         ainda

20 de fev de 2015

livro novo, oba!


vai e vem, levando folha, papel e pensamento
vem e vai, imprevisível a cada momento
faz a gente ficar arrepiada, alegre e também triste
faz a gente lembrar que as coisas invisíveis existem

17 de fev de 2015

carnaval

O enredo era simples: a turma se reunia no pátio do prédio pro ensaio geral, formava duplas ou trios e depois, todos juntos, atravessávamos a avenida da praia de José Menino, em Santos, devidamente equipados com bisnagas coloridas, sacos de confete, muitos rolos de serpentina e um bom estoque de martelinhos de plástico. Organizados em alas, os grupos se posicionavam em pontos estratégicos ao longo da calçada, a postos pra dar banho de água e alegria em quem passasse. Os que não entravam no espírito da folia, levavam martelada e tinham que sair correndo debaixo de vaia. A certa altura, mães e pais começavam a aparecer, chamando pra jantar e, mais ou menos contrariados, íamos todos pra casa, com a promessa de um novo encontro logo cedo, na praia. Lembro de adormecer ouvindo os ruídos que seguiam chacoalhando a cidade noite adentro, com o carnaval grudado no meu corpo em forma de confete.

11 de fev de 2015

o mistério da gaveta

(...) então os olhos da vó Delma resolveram olhar pra dentro, quem sabe o que poderiam encontrar lá na cabeça? No início, arregalaram, cheios de expectativa, esperando tropeçar numa grande surpresa a qualquer momento. Mas depois de explorar todos os cantos daquele espaço oco e redondo sem que nada acontecesse, foram perdendo o brilho. Durante algum tempo continuaram por ali, murchinhos, perambulando sem foco, esquecidos do que tinham ido procurar lá dentro (...)

Dez anos e muitas reimpressões depois, volto ao meu primeiro livro, que será reeditado no segundo semestre com tintas fresquinhas no texto e nas ilustrações.

9 de fev de 2015

espelho

nuvens de espuma
flutuam em ondas
nas superfícies azuis

29 de jan de 2015

21 de jan de 2015

escrever

 "quando você está escrevendo bem, é como se alguém estivesse ditando".

(do escritor português Antonio Lobo Antunes, na Flip, em 2009)