20 de fev de 2015

livro novo, oba!


vai e vem, levando folha, papel e pensamento
vem e vai, imprevisível a cada momento
faz a gente ficar arrepiada, alegre e também triste
faz a gente lembrar que as coisas invisíveis existem

17 de fev de 2015

carnaval

O enredo era simples: a turma se reunia no pátio do prédio pro ensaio geral, formava duplas ou trios e depois, todos juntos, atravessávamos a avenida da praia de José Menino, em Santos, devidamente equipados com bisnagas coloridas, sacos de confete, muitos rolos de serpentina e um bom estoque de martelinhos de plástico. Organizados em alas, os grupos se posicionavam em pontos estratégicos ao longo da calçada, a postos pra dar banho de água e alegria em quem passasse. Os que não entravam no espírito da folia, levavam martelada e tinham que sair correndo debaixo de vaia. A certa altura, mães e pais começavam a aparecer, chamando pra jantar e, mais ou menos contrariados, íamos todos pra casa, com a promessa de um novo encontro logo cedo, na praia. Lembro de adormecer ouvindo os ruídos que seguiam chacoalhando a cidade noite adentro, com o carnaval grudado no meu corpo em forma de confete.

11 de fev de 2015

o mistério da gaveta

(...) então os olhos da vó Delma resolveram olhar pra dentro, quem sabe o que poderiam encontrar lá na cabeça? No início, arregalaram, cheios de expectativa, esperando tropeçar numa grande surpresa a qualquer momento. Mas depois de explorar todos os cantos daquele espaço oco e redondo sem que nada acontecesse, foram perdendo o brilho. Durante algum tempo continuaram por ali, murchinhos, perambulando sem foco, esquecidos do que tinham ido procurar lá dentro (...)

Dez anos e muitas reimpressões depois, volto ao meu primeiro livro, que será reeditado no segundo semestre com tintas fresquinhas no texto e nas ilustrações.

9 de fev de 2015

espelho

nuvens de espuma
flutuam em ondas
nas superfícies azuis

29 de jan de 2015

21 de jan de 2015

escrever

 "quando você está escrevendo bem, é como se alguém estivesse ditando".

(do escritor português Antonio Lobo Antunes, na Flip, em 2009)

15 de jan de 2015

chegou!


Feliz por fazer parte desta coletânea organizada pelo Nelson de Oliveira, ao lado de uma turma estreladíssima de escritores: Adriano Messias, Carla Caruso, Claudio Fragata, Cristina Porto, Flávia Côrtes, João Anzanello Carrascoza, Leo Cunha, Luís Dill, Luiz Bras, Maria José Silveira, Marília Pirillo, Sônia Barros, Tânia Martinelli e Tino Freitas. Com um projeto gráfico caprichado de Raquel Matsushita, que também assina as ilustras, o livro ficou... Como dizer? Supimpa!E aqui, um trechinho do meu conto, "Dani vai dançar".

13 de jan de 2015

mar

no sonho líquido
mergulho nas ondas
desmancho na espuma
sal bolhas bruma
boca e olhos de areia
sons de sereias

11 de jan de 2015

verão

O frescor da manhã dura pouco. O dia acorda quente e agitado, sem tempo pra descansar na sombra ou pra se refrescar de brisa: não há nuances sob o sol de verão, e talvez por isso seja tão difícil escrever. É como se a vida acontecesse apenas lá fora, elétrica e radiante, alegria de cigarras, insetos e pessoas em atividade frenética chamando pra festa: vem! No calor das horas, tudo se expõe sem pudor, ruas, árvores, corpos e humores adquirem contornos exatos ao meio-dia. Mas as palavras se dissolvem, enfraquecidas, preguiçosas, dispersivas, à espera de nuvens que tragam alguma calma e, com sorte, concentração e sua promessa de histórias e tempestade.

9 de jan de 2015

preocupação

É como uma nuvem que estaciona em cima da gente e encobre o pensamento em sombras, anunciando uma tempestade que nem sempre acontece.

3 de jan de 2015

de novo no ano novo

Começo 2015 voltando ao meu primeiro livro: “O Mistério da Gaveta” vai mudar sem sair da casa onde mora há dez anos. Junto com o novo projeto gráfico, com direito a capa dura, e novas ilustrações, veio a chance de rever o texto escrito em 2003. Nos próximos dias, vou me reencontrar com vó Delma, a personagem que não se conforma por ter sido abandonada pelo autor, dentro de uma gaveta, com um misto de medo e alegria, como quem vai receber alguém querido que estava distante há muito tempo. Vamos colocar o papo em dia, mas torço pra que o nosso assunto não tenha perdido o frescor e eu consiga percorrer as suas aventuras sem a alterar a trilha dessa fábula sobre a criatividade.
A segunda novidade também é uma volta, igualmente acompanhada de muitas expectativas: daqui a um mês, sou aluna de novo, no curso de pós-graduação de formação de escritores. Mas com tantos livros publicados, como assim? Pra quem tem me perguntado a resposta é simples: tem a ver com voltar a mim mesma e talvez descobrir outros jeitos de me escrever nos muitos novos livros que estão por vir.    

28 de dez de 2014

os dias

Eles correm, quase voam até finalmente chegar aqui. Mas quando amanhece e se dá conta de que é o último do ano, Domingo respira fundo e paira, sem pressa nenhuma de passar. Calmo por natureza, hoje ele se dá ao luxo de ser ainda mais lento e quieto. Como se quisesse ser plenamente Domingo pela última vez desta vez. E mesmo sob o sol excitado pelo verão, a tarde desliza tranquila, vai se esticando, preguiçosa, e fecha os olhos lentamente quando a noite chega, diferente das noites ansiosas de tantos Domingos antecipando a Segunda-Feira.
Os próximos três dias, cada vez mais últimos, também entram nesse ritmo estranho e seguem desconectados do relógio e suas urgências. Suspenso na rede, o Tempo tira férias, balançando entre o ano que termina e o que está começando, e quando amanhecer novamente, Domingo vai respirar fundo e pairar, como se fosse a primeira vez.

21 de dez de 2014

natal

Todo mundo foi embora. Aos poucos, é verdade. Uma turma se mudou num ano; outra, meses depois. E eu fui ficando e ficando e fiquei. Sozinho. Por sorte, sou muito maleável, me adapto bem às circunstâncias. Cá entre nós, não sinto tanta falta assim de ninguém, quer dizer, na maior parte do tempo. Mas quando chega dezembro, confesso, bate uma saudade. O pessoal era animado e na hora de armar a festa, nossa, a gente caprichava no visual. Espalhados pela casa, dávamos um colorido todo especial a cada canto, muito brilho, luzes, era lindo mesmo! A criançada brincando com a gente, bons tempos! Agora todos cresceram, fico espantado vendo como o tempo passou... Mas não vou dar uma de saudosista, até porque hoje em dia também tem festa. A noite sempre é alegre, com música e o maior capricho nos comes e bebes, e mesmo sozinho, eu continuo aqui, a postos, no lugar de sempre, dando as boas vindas pra quem chega. É uma baita responsabilidade, ser o único vestido a caráter, segurando o clima da noite! Mas também é uma delícia continuar existindo pra quem, ano após ano, espera esse dia pra me reencontrar.

18 de dez de 2014

natal

trocar presentes
celebrar encontros
lembrar dos ausentes

rimar alegria com melancolia

desde que me lembro
a saudade mora
em dezembro

13 de dez de 2014

afeto

a língua-lixa lambe
com delicadeza
faz cócegas, arranha
mistura doçura e dureza 

na língua dos gatos
amor rima com aspereza

10 de dez de 2014

A Vida é Logo Aqui

(…) Dani, não esquece! Toma logo o antialérgico se levar uma picada!
Entro no ônibus abraçando minha mochila feito travesseiro, e me encolho num dos últimos bancos, cara grudada na janela, dando tchau pra minha mãe, de pé, ali na calçada, entre mil mães a única com vontade-de-chorar-disfarçada-de-sorriso. Seu rosto me diz que ela está feliz porque estou indo e aflita porque estou indo. Quando o ônibus começa a se mover, a turma grita e festeja a partida enquanto as mães vão ficando pra trás, e então peço -- é quase uma prece -- pra que todos os temores fiquem lá, com ela, plantados na calçada.

Trecho de "Dani Vai Dançar", na coletânea organizada por Nelson de Oliveira, chegando com o ano novo com o selo do Sesi-SP Editora.

8 de dez de 2014

esperar

(*)
o chá, as manhãs, as histórias: todas as coisas têm seu tempo de nascer.  

(*) a ilustração é de Eva Vásquez

3 de dez de 2014

sementes

Hoje lembrei daquela experiência que a gente fazia na escola, em algum momento do antigo curso primário: dentro de um potinho transparente, colocávamos um grão de feijão sobre um punhado de algodão embebido em água. Depois, era só deixar o recipiente num lugar bem iluminado, umedecer o algodão, caso secasse, e esperar. Em poucos dias, o feijão enrugava e logo aparecia a pontinha de um caule que cresceria rápido, feito mágica, rodeado de folhas verdinhas. Aguardo o início do ano com a mesma expectativa da menina que ficava observando os primeiros sinais de mudança dentro daquela nuvem de algodão, ansiosa para ver os brotos de tantas sementes que plantei em 2014.

1 de dez de 2014

o nome das coisas

sol é palavra que brilha
solidão é a palavra ilha

música é palavra que canta
segredo é palavra que não conta

estripulia é palavra que pula
imaginação é palavra que fabula

é como se tivesse olhos
boca, ouvidos e nariz

cada palavra dá um rosto
a tudo que se diz