10/04/2014

cantiga (7)

a chuva molhou a rua
depois de um dia de sol
a tarde chorou baixinho
calou até o rouxinol

a noite chegou mais cedo
a lua não apareceu
a rua ficou escura
e o mundo entristeceu

(*) o cravo brigou com a rosa
     debaixo de uma sacada
     o cravo saiu ferido
     e a rosa despedaçada


     o cravo ficou doente
     a rosa foi visitar;
    o cravo teve um desmaio
    a rosa pos-se a chorar

07/04/2014

cantiga (6)

estrela da noite
que brilha pra mim
eu faço um desejo e o céu me diz sim

estrela da noite
que brilha assim
me diz que os sonhos também não têm fim    

(*) coelhinho da Páscoa
      que trazes pra mim? 

     um ovo, dois ovos, três ovos assim 
     coelhinho da Páscoa
     que cor eles têm?

     azul, amarelo, vermelho também 

04/04/2014

Instruções para identificar anjos

1. Perto de todo bebê sempre tem um anjo. Às vezes, dois ou até mais. Nesse caso, não se trata de privilégio -- é só uma questão de oferta e demanda: por acaso, alguns bebês nascem em épocas em que um grande número de anjos simplesmente está desocupado. Acontece.

2. Os que assumem a guarda logo de cara cuidam de transformar em música os primeiros sons que o bebê escuta quando chega ao mundo. E que não se pense em querubins tocando harpa! Anjos compõem suas melodias com outras notas -- voz de mãe, conversa de passarinho, barulho de chuva e até chiado de vento.

3. Conforme vão crescendo, os bebês passam a ser guiados por anjos mais ágeis, dotados de grande capacidade de correr ou voar rapidamente, além de uma incrível perspicácia: são capazes de prever e evitar um número enorme de acidentes, atentos a degraus, objetos pontiagudos, vidros, piscinas, lareiras, fogões, ferros de passar e tudo o que faz parte do mundo ainda tão pequeno.

4. Depois dos primeiros anos, esses guardiões são substituídos por anjos mais interativos, que às vezes até sopram ideias, gostam de despertar curiosidades e acompanham as primeiras aventuras. E, claro, protegem -- nunca esquecem de ser anjos.

5. Os anjos continuam por perto -- talvez não tão perto, mas conectados --, durante muito tempo. A vida toda até. É só chamar, eles estão a postos. 

02/04/2014

cantiga (5)

Joaquim, gatinho danado
apareceu lá em casa
e foi logo entrando sem ser convidado
Foi só miar
de um jeito amoroso
pra me conquistar, que gato tão dengoso!

Joaquim, gatinho miúdo
como é que consegue
comer tão depressa e acabar com tudo?
Foi só me olhar
de um jeito azulado
pra me conquistar, que gato mais safado!

Joaquim, gatinho bagunceiro
some de repente
pra ser encontrado sob o travesseiro
Foi só pular
direto no meu colo
pra me conquistar, que gato mais faceiro!

(*) Alecrim, alecrim dourado/que nasceu no campo/sem ser semeado
Foi meu amor/que me disse assim/que a flor do campo é o alecrim

Alecrim, alecrim miúdo/
que nasceu no campo/perfumando tudo
Foi meu amor/que me disse assim/que a flor do campo é o alecrim

Alecrim, alecrim aos molhos/por causa de ti/choram os meus olhos
Foi meu amor/que me disse assim/que a flor do campo é o alecrim

01/04/2014

cantiga (4)

de onde é que o menino
tira tanta alegria?
como é lindo o menino
seu sorriso é poesia

como poderei viver?
como poderei viver?
sem a sua, sem a sua
sem a sua companhia

(*) como pode um peixe vivo 
      viver fora d'água fria
      como pode um peixe vivo
      viver fora d'água fria?
      
      como poderei viver?
      como poderei viver?
      sem a sua, sem a sua
      sem a sua companhia


30/03/2014

cantiga (3)

hoje é domingo
dia de preguiça
a preguiça é delícia
bate na gente
e a gente espreguiça
bate no gato
o gato ronrona
seu pelo se eriça
batem na porta
a gente não abre
todo mundo dormindo
porque hoje é domingo

* hoje é domingo
   pede cachimbo
   o cachimbo é de barro
   bate no jarro
   o jarro é de ouro
   bate no touro
   o touro é valente
   bate na gente
   a gente é tão fraco
   e cai no buraco
   o buraco é tão fundo
   acabou-se o mundo

27/03/2014

cantiga (2)

se essa rima
se essa rima fosse rica
eu cuidava
eu cuidava de guardar
num cofrinho
num cofrinho bem secreto
só pra ler
só para o meu bem-querer

23/03/2014

festa no formigueiro

  "
A irmã da cigarra, a mesma formiga e uma nova história lá no "Quintal" da revista Crescer.

22/03/2014

paisagem

casa vazia
relógio parado
silêncio de domingo
na tarde de sábado

20/03/2014

bom dia, outono!

hoje cedo o vento espalhou a notícia pelas árvores, provocando agitação entre as folhas: da janela, vi as primeiras a mudar de roupa, vestindo amarelo pra saudar a nova estação.

17/03/2014

silêncio: meninas trabalhando!

De Agatha Cristina, 10 anos, durante a "Roda de Rima", lá na Biblioteca São Paulo:

E agora, Aurora, cadê você?
Queria te ver agora
Mas você foi embora
Agora é você que chora!


11/03/2014

Convite

o arroz é branquinho quando está sozinho
mas sua cor e sabor mudam com um bom caldinho

a palavra é como o arroz: quando está só, diz uma coisa
mas pode dizer muito mais, depende do que vem depois

com uma porção de imagens e uma pitada de magia
a palavra também muda e fica com gosto de poesia
...
Sexta-feira, dia 14, a partir das 10h, tem "Roda de Rima" na Biblioteca São Paulo. Vem!

26/02/2014

folia

A gente se reunia no pátio do prédio e combinava tudo, tipo um ensaio geral. Depois, todo mundo de mãos dadas, formávamos um cordão de foliões pra atravessar a avenida da praia de José Menino, em Santos, devidamente equipados com bisnagas coloridas, sacos de confete, muitos rolos de serpentina e um bom estoque de martelinhos de plástico. Organizados em alas, os grupos se posicionavam em pontos estratégicos ao longo da calçada, a postos pra dar banho de água e alegria em quem passasse -- e quem não entrava no espírito da festa, levava muita vaia e marteladas. Lá pelas tantas, mães e pais apareciam chamando pra jantar, dando início ao bloco dos só-mais-um-pouquinho, o samba-enredo que cantávamos juntos até cansar. Sob protestos, a turma dispersava já marcando um encontro logo cedo, na praia. Não sei dos outros, mas eu me recusava a ir pra cama e adormecia no sofá da sala, exausta, ouvindo os ruídos que seguiam chacoalhando a cidade noite adentro, com o carnaval grudado no meu corpo em forma de confete.
...
Pra animar o blog, um texto parecido com os de outros carnavais, já que continuo na folia da arrumação pós-reforma...

18/02/2014

quase lá


A reforma finalmente terminou. Até o final do mês -- espero! -- volto pra casa e para o meu velho-novo escritório, com tudo em ordem: livros na estante, passarinhos na janela, ideias na cabeça e tempo de sobra pra passear de bicicleta.

A ilustração veio daqui.