5 de fev de 2016

27 de jan de 2016

saudade

Hoje ela apareceu logo cedo, entrou na cozinha e me surpreendeu ainda de pijama: um susto, eu e o pão pulando da torradeira, e de repente o gosto do lanche que você levava para a escola. A saudade me dá bom dia e diz: hoje também é ontem. Então a convido para ficar, ofereço café fresquinho e espalho lembranças de manteiga nas fatias de um tempo que nunca acaba.

18 de jan de 2016

um, dois, três: assim começa uma história

No começo e durante muito tempo era apenas o Um.
Certo dia, alguém trouxe o Dois, um siamês ensimesmado -- ou talvez fosse melhor dizer com todas as letras: convencido de sua suposta superioridade – olhando com ares azuis para tudo e todos. O que não tinha em majestade e beleza felinas, Um compensava com um afeto mamífero irresistível, sempre pronto para retribuir cafunés com longas sessões de massagem, duas patas alternando toques de carinho no ritmo de um ronronar enérgico. Diferente de Dois, a vira-latice de Um o predispunha a se agrupar com uma docilidade realmente única: por isso, recebeu o novo companheiro de peito aberto, mostrando logo o quanto queria formar um par com Dois. Com a convivência, Dois encontrou seu lugar e a vida se encaixou em sua sequência lógica até a chegada de Três. Enorme em tamanho e afetividade, o cachorrão levou algum tempo para conquistar a confiança dos gatos, mas ao cabo de algumas semanas, sua determinação ímpar venceu todas as barreiras – sob o olhar incrédulo de Dois, Um não demorou a se entregar às lambidas de Três, macho com aptidões maternais, golden feito de mel, no mesmo tom caramelo dos seus pelos e dos seus instintos grudentos.
A dona da casa gostava dos bichos e, mais ainda, dos números -- esse era o seu alfabeto, um jeito de ler o mundo do zero ao infinito. Por isso, há muito tempo, deixara de ser Camila para se tornar Mil, um nome-número com som de estrada longa, gosto de fartura e vocação para grandes sonhos.

2 de jan de 2016

feijões

No final de 2014, lembrei aqui daquela experiência que todo mundo já fez nas primeiras aulas de biologia: a de colocar um grão de feijão sobre um punhado de algodão com água, dentro de um pote transparente. Bastava deixar o recipiente num lugar bem iluminado, umedecer o algodão, caso secasse, e esperar. O feijão enrugava e logo aparecia a pontinha de um caule que cresceria rápido, feito mágica, rodeado de folhas verdes. Eu aguardava 2015 com grande expectativa -- a de ver surgirem os brotos de todas as sementes que eu havia plantado. Infelizmente o ano não floresceu como se esperava: difícil para os feijões, e também para o mercado editorial, com contratos cancelados, publicações adiadas, más notícias por toda parte. Mas justamente nesse ano tão árido as palavras brotaram, mais férteis do que nunca, embebendo minha nuvem de algodão com histórias inesperadas. É com esse frescor que começo 2016, e se o tempo da colheita ainda não chegar, que continue inspirando o plantio de muitos sonhos, as melhores palavras e deliciosos feijões.       

24 de dez de 2015

hoje

natal é saudade de uma noite antiga, as crianças de olhos arregalados procurando papai noel entre as estrelas que brilhavam muito mais sobre a cidade do interior, o céu exuberante iluminando os sonhos dos grandes e dos pequenos; de repente, gritos de alegria, a excitação saltando entre nós que víamos, num relance, a nuvem-trenó, olha, olha, ele está chegando!, e logo apareciam os pacotes coloridos, a árvore generosa presenteando a inocência dos nossos desejos e plantando -- eu ainda não sabia -- a saudade de uma noite antiga.

18 de dez de 2015

receita

os ingredientes são fáceis de achar
assim como o modo de preparar:
em taças de cristal com reflexos azuis
(para ficar bem composto!)
sirva duas bolas de sorvete de nuvem
coloque uma pitada de farofa de estrela
acrescente creme da Via Láctea a gosto
e regue com calda de lua cheia
ah! para acompanhar alguém traz
biscoitos-desejo sabor sorte e paz
e então é só fechar os olhos e provar
essa sobremesa pra lá de especial:
néctar da noite de natal

8 de dez de 2015

ops!

Um lapso se explica por si só: é como o seu próprio Pê: uma letra que escapa de repente e se intromete no meio da palavra, saliente e óbvia, mostrando que tem voz, mesmo quando parece muda.

27 de nov de 2015

vazio


no quarto não há móveis, só marcas de pôsteres que, um dia, cobriram as paredes, e algumas revistas espalhadas sobre o piso frio, como gravetos de um ninho que se desmanchou.

18 de nov de 2015

trecho

de coisas que ando escrevendo...

(…) Pra mim, essa história de conexão entre gêmeos é puro folclore. A baboseira de que um sente o que o outro tá sentindo e tudo o mais. E sempre tem alguém contando dos irmãos separados na maternidade, adotados por pais diferentes, morando cada um num país, e morrendo no mesmo dia, do mesmo jeito. As pessoas exageram, mistificam tudo. Como se ter um gêmeo fosse uma coisa meio mágica unindo duas pessoas em tudo pra sempre. Isso é totalmente bizarro. A vida de cada um é única e o que tem dentro da gente só a gente sabe. A gente e as pessoas com quem a gente se conecta de verdade. Ela... Pensei que era de verdade. Mas como ela pode ter achado que ele era eu? Quer dizer que todas as vezes em que olhei nos olhos dela, foi só isso que ela viu, a mesma cara do Júlio?

7 de nov de 2015

inquietação

é como o vento despenteando árvores e o fogo que se lambuza na madeira seca fazendo tudo crepitar dentro da gente.

2 de nov de 2015

(a)ventura

Fascínio e vertigem.
Há em mim um lugar que é porta entreaberta.
Pelas frestas, luzes: tantos tons e intensidades. Às vezes, é um clarão que ilumina com brilho o sempre dos dias. Em outros momentos, é só um lume discreto, chama de lanterna, esperança nas noites mais escuras.
Pelas frestas, oxigênio: corrente de ar vivo, sopro do mundo.
Nos dias de ventania, a porta escancara, empurrada pela força da 5ª Sinfonia de Mahler, pela poesia de Szymborska, pela palavra inaugural de Manoel de Barros, pela imaginação assombrosa de Calvino, pela tempestade nas telas de Turner ou pela simples visão do mar em ondas inquietas que reverberam leveza e profundidade.
Mas a porta também se abre com suavidade quando é outono e parece que vejo o sol se por pela primeira vez. Ou quando as nuvens se transformam em alfabeto para contar histórias em movimento.
Muitas vezes a porta se abre inesperadamente e me conduz a outros mundos pelas páginas de um livro. Tantos livros - através do espelho de Alice ou descortinando uma espécie de felicidade clandestina, eu, de repente, na mesma rede da menina do conto de Clarice.
Fascínio: por trás dessa porta, o sentido de tudo: coisas que me chamam porque também são minhas de tanto que as conheço. Nelas, me reconheço.
Vertigem: avanço devagar, toco as divindades que me visitam em momentos de suspensão; com sorte, por instantes, experimento o gozo do voo.
E volto. Preciso voltar. Tanto quanto preciso manter essa porta sempre entreaberta.

18 de out de 2015

casas

Pedro mora na casa amarela da rua cinza de uma cidade muito grande. Julia vive com a cabeça nas nuvens, no último andar de um prédio que arranha o céu. Caio vive pra lá e pra cá: sua casa é onde seus brinquedos estão. Cris mora dentro do seu diário e lá escreve cartas que acaba não enviando pra João, que mora em outro país, numa casa que ela não conhece. Clara ainda está morando dentro da barriga da sua mãe. João sempre diz que sua casa é duas, a do pai e a da mãe. Às vezes, Tati se imagina morando lá longe, na casa-estrela de onde sua avó manda beijos brilhantes.

5 de out de 2015

trecho

de uma nova história:


(…) Eu tinha acabado de fazer seis anos quando ela nasceu. Mamãe queria que ela se chamasse Lúcia, como a mãe dela; papai preferia Leda, como a mãe dele. Mas quando colocaram ela no meu colo, lá na maternidade mesmo, achei que ela tinha cara de Luísa. Sei lá de onde tirei esse nome, eu não conhecia nenhuma Luísa, não que me lembre. Mas devo ter falado com tanta certeza que meus pais decidiram na mesma hora. Ficou sendo Luísa, a irmãzinha por quem abdiquei do trono de filha única na maior alegria. Podia ter sido diferente se eu tivesse dois, três anos, talvez rolasse a maior ciumeira. Todo mundo diz que é assim. Mas, aos seis, foi como ganhar um presente! Minhas amigas morriam de inveja porque a minha boneca era de verdade. Eu adorava dar mamadeira, trocar fralda, cantar pra ela dormir, e mamãe adorava, é claro – quando eu voltava da escola, ela tinha direito a recreio. Mesmo depois, quando a Lu já era mais crescidinha, eu largava tudo pra brincar com ela. Com uns dez anos, eu passava horas assistindo desenho animado e continuava me divertindo com as nossas “danças malucas”, uma espécie de samba desajeitado que sempre acabava no chão com muita risada. É verdade que de vez em quando a Lu teimava, chorava, causava! Mas a caçulinha tinha privilégios, dois minutos de castigo e pronto, mamãe logo liberava. Já eu tinha obrigação de ser paciente, afinal, era uma “mocinha”.

24 de set de 2015

aquarela

laranja e amarelo
escorrem suados
pela tela

sol e flores
misturam humores
de primavera

21 de set de 2015

homem-ditado

Quando eu era pequena, achava a maior graça sempre que meu avô dizia: “boca fechada não entra mosquito”. Ficava imaginando porque um mosquito iria querer entrar na boca de alguém com tanto espaço pra voar. Ele sempre tinha uma dessas máximas na ponta na língua pra retrucar ou comentar e principalmente pra encerrar qualquer conversa. Velhinho, ele virou uma espécie de homem-ditado -- dependendo do assunto, a gente já adivinhava o arremate: lá vem a história do silêncio de ouro, agora ele vai dizer que seguro morreu de velho ou que mais vale um pássaro na mão etcétera e tal. Fui crescendo, parei de achar graça e comecei a sentir certa compaixão pelo meu avô, aprisionado nessas frases feitas, cheias de verdades chatas. E cada vez que ele ameaçava soltar um desses provérbios embolorados, era eu quem tinha vontade de dizer: “boca fechada não entra mosquito”.

15 de set de 2015

sonho

Éramos nós três na foto, eu, no colo do meu pai, e a minha mãe. De repente, a foto entrou dentro do carro e minha mãe estava dirigindo. Ela sorria, olhando pra frente. Estávamos numa estrada, indo pra praia. Agora eu tinha sete anos e viajava quietinha no banco de trás. Todos estavam felizes dentro do carro, como se fosse o primeiro dia de férias. No momento seguinte, éramos só nós dois, eu, bebê de novo, no colo do meu pai, passeando num jardim. Não tinha ninguém por perto e nós dois estávamos nus. Não acontecia nada e dentro do sonho sonhei que achava estranho não acontecer nada. Mas era gostoso sentir o sol na pele.

3 de set de 2015

trecho

… de uma longa história:

(…) Eu tinha 12 anos quando minha avó morreu. Três dias antes, ela estava lá, na cozinha que eu conhecia desde sempre, eu e ela em frente ao fogão, duas colheres de pau misturando a massa do brigadeiro na panela de ferro, e eu ria cada vez que mergulhava a ponta do dedo no chocolate quente, Nina, desse jeito você acaba com o recheio do bolo! Ela estava lá, fazendo as coisas de sempre, perguntando da escola, se eu tinha ido ao dentista, querendo saber das novidades e me pedindo pra ligar o forno enquanto untava a forma com uma nuvem fininha de manteiga. Ela ainda estava lá, de pé, ao lado do portão, quando saí carregando o embrulho de papel alumínio com todo o cuidado, minha mãe com o carro ligado, reclamando do trânsito, prometendo voltar no sábado, e o cheiro quente do bolo dentro do carro, virando a esquina enquanto ela acenava pra nós. Ela ainda estava lá.
Meus primos e eu ficamos na casa de uma vizinha da tia Helô. Não nos levaram ao velório nem ao enterro. Melhor que lembrássemos da nonna como ela era, disseram, e em algum momento, quando já estávamos prontos pra dormir, lembrei do bolo, ainda pela metade, deixado sobre a mesa, junto com as xícaras e os restos do café da manhã, interrompido às pressas, enquanto minha mãe andava pela casa, desnorteada, depois de desligar o telefone. A dor explodiu de repente, sacudindo meu corpo com um choro surdo e assustador, uma agonia que ainda não sabia ser lágrima, gritando por dentro, em cada canto, como se precisasse juntar forças pra passar pela garganta, estrangulada, a boca aberta enquanto minha barriga chorava, meus braços choravam, todos os fios dos cabelos choravam. Num impulso, talvez porque não soubessem o que fazer, meus primos me abraçaram com força, e o que em mim tentavam conter aos poucos foi se espalhando pelos três em forma de espasmos, soluços, líquidos, o mesmo sangue de três netos circulando num único corpo que finalmente chorava.
A morte da minha avó foi uma notícia, a máscara de dor no rosto da minha mãe e um buraco pra onde, por muito tempo, eu olhava, indignada, sem compreender como ela tinha partido sem se despedir.

(…) 

27 de ago de 2015

inverno

é como um toque de recolher: os dias vão embora mais cedo, encolhidos de frio, e a vida lá fora fica mais quieta pedindo pra gente escutar as palavras de dentro.

24 de ago de 2015

trecho

… de uma nova história:


(…) Ah, preciso te contar o sonho! Hoje acordei com uma vontade louca de comer brigadeiro por causa desse sonho. Lembra quando a gente ficava enrolando brigadeiro a tarde toda? Então, sonhei com aqueles soldados-bolinhas enfileirados na mesa da cozinha, lembra? Você inventava que a mesa era o pátio do quartel e daí contava a história do exército de brigadeiros. Era uma história sem pé nem cabeça: você dizia que eu não podia comer todos os soldados de uma vez porque o batalhão tinha que ocupar o território inteirinho, e o território era o prato! Que maldade enganar uma criancinha desse jeito, como você tinha coragem? Daí pulei da cama com desejo de brigadeiro e com tanta saudade daquela época... Sinto saudade de você, sabia?